
Certa vez visualizei em algum lugar uma frase que para mim fez todo um sentido ,visto a forma como a temática da classificação racial aqui no Brasil é abordada e representada ,onde não possuímos uma classificação formal racial em Negro ou Branco ao contrário do que ocorre em outros países sobretudo os Estados Unidos .Esta frase trouxe para mim todo um sentido a respeito de como a questão da identidade racial é tratada em nosso país :”Eu sou negra demais para os brancos ,e branca demais para os negros “.
O reconhecimento da identidade negra para mim foi um tema muito confuso na minha infância, pois quando notava que a maioria das crianças da escola pública municipal que estudava eram negras como eu ,alguns possuindo o mesmo tom de pele que eu e outros com um tom de pele mais escuro. Sempre ficava a espreita observando a prática de chacotas e piadas por parte das crianças de pele negra mais clara para com os as de pele negra mais escura .Segui com este questionamento até por volta dos meus 13,14 anos quando comecei a ter mais conhecimento e propriedade para falar sobre o assunto ,através de leituras e principalmente dos diálogos com minha mãe e minha bisavó que faziam-me relatos assegurados por elas que os nossos antepassados já trabalhavam na roça ,logo deu pra perceber que a minha linhagem não era da casa grande.
Na legislação Estadunidense, em que a lei chamada de “sangue negro” nas veias de pessoas “brancas” que passavam a ser consideradas negras ,mesmo possuindo um fenótipo inconfundivelmente branco para os nossos padrões de classificação racial aqui no Brasil ,levaram a este preconceito ser tratado como um “racismo das origens” e não de “marca “ como ocorre em nosso país ,sendo o nosso preconceito muito mais contextualizado e sofisticado que o Estadunidense ,que é bem direto e formal . A grande consequência disto esta na nossa enorme dificuldade de combater o nosso preconceito ,dando-se uma vantajosa invisibilidade a este , que na realidade prática nos conduz a ter preconceito de termos preconceito fato que é facilmente observado quando ouvimos a celebre expressão muito proferida aqui no Brasil de que :” Racismo não existe “.
O caso do chamado “Racismo a brasileira” ,é explicado pelo fato de que em sociedades ditas igualitárias como como os Estados Unidos ,o preconceito é muito mais formalizado e demonstrado de maneira clara e direta , pois sua ideologia nega a existência de etnias intermediárias como no Brasil em que sempre ouvimos corriqueiramente ás pessoas com um fenótipo indiscutivelmente negro serem atribuídas novas modalidades etnia ,conduzindo a criação de uma série de “colorismos” , como por exemplo :”moren@”, ”sarará”, ”cabo verde”,”mulat@” ,”pard@”.... e por aí vai .A inexistência de uma classificação étnica formal em nossa sociedade ,traz como consequência o cultivo de um preconceito velado que se constitui em uma forma muito eficiente de discriminar as chamadas “pessoas de cor “.
Gostaria de citar que o reconhecimento e enaltecimento da minha identidade negra ,trouxe a oportunidade de exaltar a minha ancestralidade e por fim denunciar a ideologia embranquecimento , que anulou a cultura e tradição de um povo e que infelizmente ainda é cultivada por algumas pessoas negras de pele clara que através do aceite dessa ideologia renegam sua identidade negra e colaboram para a manutenção do chamado “Racismo a Brasileira” em nossa sociedade. Pois sempre devemos saber o nosso lugar de fala irmãos e irmãs negras, para que não façamos com os nossos semelhantes o que os nossos opressores fazem há tantos anos .Por fim gostaria de deixar este singelo verso , que traduz na realidade prática o sentido que a referida frase citada no início deste texto :
"Quando digo que sou negra
Corre um monte pra falar
Que não sou suficiente
Para me identificar
Se não fosse irritante
Ia ser hilariante
Mas é de se preocupar."
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